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Vilmara Bello e Natan Barreto no III Encontro Mundial de Escritores Brasileiros no Exterior de Nova York/2015

Literatura por em 2015-09-29 05:07:08
Artigo escrito por: Rose Abrahao Nascif

Com o advento da globalização estabeleceu-se uma nova ordem política, econômica, social e cultural ao acelerar o esgarçamento das fronteiras geopolíticas que ordenavam os espaços nacionais, de modo a dissipar a correlação direta entre território nacional e cultura nacional.
Nesse novo panorama, as literaturas nacionais dispuseram de outras alternativas para além das imposições geográficas, incorporando a contribuição de escritores e escritoras que se transferiram para outros países. Nesse sentido, desde 1999, a professora catedrática Else R. P. Vieira, da Queen Mary University of London, tem identificado em suas pesquisas o surgimento de um fenômeno que ela denominou de “literatura da diáspora brasileira”, produzida por escritores brasileiros que vivem (ou já viveram) fora do Brasil. Entre eles, Vilmara Bello e Natan Barreto, que adotaram a poesia como gênero privilegiado, de caráter intimista por excelência, quase confessional. 
Projetar o alcance dessas vozes poéticas em direção a outras dimensões geográficas, e consequentemente linguísticas, constitui uma tarefa de aliciamento de novos leitores, potenciais apreciadores da arte poética desses “poetas à deriva”, como os define Else Vieira. 
Com o mesmo propósito, pressupõe-se que a tradução de sua obra conferiria maior abrangência desse público leitor, seja ele especializado ou não. 

E coube a mim o privilégio de traduzir ao espanhol e comentar poemas escolhidos de Vilmara Bello e de Natan Barreto, como parte das atividades desenvolvidas do meu ora em curso estágio de pós-doutoramento sob a orientação da referida profa. Else Vieira. 
A pesquisa visa a contribuir com os estudos referendados pelo Iberian and Latin American Studies, da Queen Mary University of London, instituição com a qual o Programa de Pós-Graduação- Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mantém parceria de colaboração em pesquisa acadêmica, através do projeto interinstitucional “Entre-lugares da literatura da diáspora brasileira” (http://pelomundobrasil.blogspot.com.br/), patrocinado pela CAPES/MEC.
Em decorrência disso, tive o oportunidade de participar do III Encontro Mundial de Escritores Brasileiros no Exterior e do II Seminário de Expressões Literárias da Diáspora Brasileira, ocorridos entre os dias 01 e 04 de setembro na Universidade de New York, com a presença de inúmeros escritores brasileiros espalhados pelo mundo, professores e imprensa. A organização dos eventos ficou a cargo do professor Domício Coutinho, presidente-fundador da Biblioteca Brasileira de Nova York e do  Brazilian Endowment for the Arts (BEA),  da referida professora Else Vieira  e do  Center for Latin American and Caribbean Studies, da New York University. 
A variada e farta programação incluiu sessões de apresentação criativa, em que os escritores apresentaram seus trabalhos, e também acadêmica, com a apresentação de trabalhos de pesquisadores da área.
Coube a mim o privilégio de falar sobre a obra de Vilmara Bello e Natan Barreto, precursores do projeto nascido de saraus literários em Londres, tal como o The Brazilian Poetry, que teve Vilmara como uma de seus idealizadores, e reuniu poetas brasileiros residentes a Inglaterra, entre 1999 e 2000. 
Dele resultou o encontro com a professora Else Vieira, na ocasião visitante da Universidade de Oxford, que mais tarde se tornaria a responsável pelos itinerantes encontros mundiais de escritores brasileiros no exterior e a organizadora da Primeira Antologia Poética da Diáspora Brasileira, da qual os referidos poetas participam.
Os dois primeiros encontros ocorreram, respectivamente, em Londres (QMUL) e em Juiz de Fora/MG (UFJF).
Para o evento em questão, o de Nova York, apresentei o trabalho “A poética de Natan Barreto e de Vilmara Bello: decifrações tradutórias”. Parti do conceito de hospitalidade, discorrido pelo filósofo franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004) na obra “Da hospitalidade” (2003), para levar a efeito os comentários sobre a tradução em espanhol de poemas escolhidos de Vilmara e de Natan.  Derrida enfatiza passagens vividas pelo rei tebano Édipo em duas obras da chamada trilogia tebana: primeiro, em sua juventude (na obra Rei Édipo), quando Édipo tem que desvendar o enigma da esfinge para ter acesso aos portais de Tebas, e tornar-se o rei da cidade, e, mais tarde, parricida e incestuoso, já velho e cego (Édipo em Colona), quando perambula com as filhas-irmãs em busca de um território que os acolha. Embora a proposta do trabalho se refira primordialmente aos aspectos da hospitalidade (relativa ou absoluta, segundo a tese de Derrida), a tradução ao espanhol dos poemas dos autores tem a ver com uma das condições implícitas na Lei da hospitalidade que consiste em “falar a mesma língua” da esfinge para adentrar o território guarnecido.
Ao partir do princípio de que o poema é a casa do poeta, não só como local de amparo contra as intempéries externas, mas também onde se promove sua cena lúdica, traduzi-los (os poemas) significa propor-lhes um novo habitat poético, uma nova vertente de mascaramento para o sujeito poético, não apenas em situação de deslocamento geográfico, mas sobretudo existencial. 
Enquanto estrangeiro, o poeta adere à errância edipiana, e enquanto artífice da palavra poética, equipara-se a uma esfinge, propondo-nos a decifração de seus enigmas, revezando-se ora como hóspede ora como anfitrião, facultando-nos a entrada em seus domínios.
Domínios agora estruturados pela língua espanhola, cujo exercício tradutório rendeu alguns entraves de ordem literal e semântica, mas oportunamente contornados pelos autores. 
Para conduzir a linha de análise voltada para o evento em Nova York, me detive na obra Minha nudez/Mi desnudez, a primeira de Vilmara Bello, com os seguintes poemas ou fragmentos de poemas:  Sentido/Sentido, Tempo de pedra/Tiempo de piedra, Vou guardar/Voy a guardar e ...entre aspas/...entre comillas. De Natan Barreto, poemas da coletânea Esconderijos em papeis/Escondites en papeles (2007), com O voo do alvo/El vuelo del clavo, Essa floresta atravesso e sei/Esa floresta la atravieso y sé, Solidão do sótão/Soledad del sótano e Esconderijos em papeis/Escondites en papeles. Ressalte-se, porém, que a pesquisa principal abrangerá outras obras de Vilmara  Bello, como Por trás da carne (lançado em Orlando, na Flórida, em abril de 1995) e em outros poemas avulsos da poeta, assim como outras obras de Natan Barreto, como Sob os telhados da noite (1999) e em outras ainda inéditas. 
A título de ilustração, apresento o fragmento de um dos quatro poemas traduzidos e comentados de Vilmara Bello no III Encontro Mundial de Escritores Brasileiros no Exterior, acompanhado de uma análise sucinta para atender ao objetivo do momento:  
Sentido Sentido
[...] Palavras que me vestem. E..., [...] Palabras que me visten. Y...,
adormeço neste abrigo, sou delas, adormezco en este abrigo, soy de ellas,
porque estamos no voo que porque estamos en el vuelo que
vai ao extraordinário lleva a lo extraordinario
que eu persigo. que busco yo.
O refúgio me protege El  refugio me protege
de risco de voar del riesgo de volar
e sigo... vigiando os sonhos y sigo... vigilando los sueños
que trazem as palavras, que me traen las palabras,
a palavra que trouxe o sonho. la palabra que me trajo el sueño.
Palavras esquecidas Palabras olvidadas
nas folhas en las hojas
anunciando o que sinto pela vida. anunciando lo que siento por la vida.

Em “Sentido”, o sujeito poético, ciente em seu íntimo de uma condição passível de despertar a hostilidade do senso comum, refugia-se em seu fazer poético, embora convicto de que cedo ou tarde deverá mover-se, mostrar-se. Do contrário, sua imobilidade poderá conduzi-la à renúncia de si mesma e ao que de “extraordinário” possa existir “lá fora”. Ela pressente a iminência do almejado voo, sentido em seu âmago, algo que ainda não teve a ousadia de realizar. 
Já em “Solidão do sótão”, de Natan Barreto, um dos outros quatro poemas comentados no evento, o sujeito poético deixa fluir sua criatividade no isolamento de um teto todo seu. Priorizou-se aqui o uso do heterosemântico sótano em vez de altillo ou desván, a fim de preservar a aliteração proposta pelo título original.  Sótano, na verdade, equivale a porão, mas ambas as palavras - sótão e porão - identificam-se com morada ou caverna, que o antropólogo francês Gilbert Durand (1921-2012) concebe como categorias arquetípicas próprias do regime noturno, que acumula entre seus atributos a profundidade, o calor e a intimidade. Priorizou-se, portanto, a questão poética sobre a semântica e simbólica, privilegiando-se a aliteração, também observada na tradução de dor como pena e não dolor, por guardar maior sonoridade com a palavra papel.  

Solidão do sótão (p. 87) Soledad del sótano
Solto, Suelto,
volto a solidão do sótão. vuelvo a la soledad del sótano.
Sofro, Sufro,
mas não me mostro pero no me muestro
a amigos que não vejo. a amigos que no veo.
Estendo a dor Extiendo la pena
num papel – escrevo. en un papel – escribo.
E almejo melhoras à alma Y anhelo mejoras al alma
e ao corpo. y al cuerpo.

Para concluir, os poemas de Vilmara Bello e de Natan Barreto constituem um referencial poético construído a partir de reflexões existenciais ao longo de seu deslocamento físico e anímico. Ora como hóspede, ora como hospedeiro, buscam a cumplicidade do leitor que os procura, concedendo-lhe em troca a dádiva de sua companhia, do acesso a seu mundo particular. Esse um dos princípios da hospitalidade para encurtar distâncias e amansar hostilidades, porém com uma graça e ternura capazes de transpor resistências obstinadas. 
Acrescente-se que, além da produção poética, ainda que esporádica, por dedicar-se a outras atividades, Vilmara Bello tem desenvolvido projetos vinculados à literatura e ao esporte. Neste mês, ela teve aprovado o projeto LIÇÂO DE QUADRA, aprovado pelo Sistema PROAC da Secretaria de Estado de Cultura do Governo de São Paulo. Natan Barreto, além de coletâneas poéticas inéditas, tem em mente a publicação de um romance em língua inglesa. 

* ROSE MARY ABRÃO NASCIF é doutora em Letras (Literatura Comparada) pela UFF. Cursou Artes Liberales na Universidade de Navarra (Pamplona, 1992-1993), e Aperfeiçoamento para Docentes de Língua Espanhola, na Universidade Internacional Antonio Machado (Baeza, 2003), na Espanha. É professora associada da UFJF, atuando nas áreas de ensino (língua espanhola e suas literaturas), pesquisa (iniciação científica e mestrado) e extensão (coordenação e participação de cursos). Autora de traduções de artigos e de resenha (Hispanic Research Journal, da Queen Mary University of London, organizadora de publicações científicas (Revista Ipotesi, nº 18-1, 2014; Literatura, Crítica, Cultura IV: Interdisciplinaridade, 2010).

1º foto - Natan Barreto, Vilmara Bello e Rose Abrahão Nascif e Else R. P. Vieira

2º foto - Vilmara Bello e NatanBarreto
3º foto - Vilmara Bello, Yara Maura Silva, irmã de Maurício de Souza e autora dos textos das histórias do livro a Turma da  Mônica.
4º foto - Vilmara Barreto em New York University. 

Artigo escrito por: Rose Abrahao Nascif
Fotos                   : Divulgação    

 

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