Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Geral > LITERANDO NO TEATRO

LITERANDO NO TEATRO

Geral por Sandra Hasmann em 2017-04-25 13:25:18

*Renata Barcellos (prof.renatabarcellos@gmail.com)

 

Publicada há 80 anos, a obra “Ratos e Homens”, do escritor americano John Steinbeck (1902-1968), ainda é atual por abordar a temática da amizade e do sonho. Adaptada para teatro, cinema e televisão, em países variados, está em cartaz no CCBB, no Rio de Janeiro, em uma montagem teatral intitulada “Sobre Ratos e Homens”. Cabe ressaltar que celebra os 60 anos de outra montagem brasileira, por Augusto Boal (1931-2009).

 

 John Steinbeck Nasceu em Salinas, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, em 1902.          É autor de inúmeras obras , dentre elas:  Sweet thursday (1954), The short reign of Pippin IV:         a fabrication (O breve reinado de Pepino IV), de 1957, Once there was a war (1958), The winter of our discontent (O inverno da nossa desesperança), de 1961,e Travels with Charley in search of America (Viajando com Charley), de 1962 – este último sobre uma viagem que Steinbeck fez pelos Estados Unidos –, America and americans (A América e os americanos), de 1966, e os póstumos Journal of a novel: The East of Eden letters (1969), Viva Zapata! (1975),The acts of King Arthur and his noble knights (1976) e Working days: the journals of The grapes of wrath (1989).  Ele recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1962, com a seguinte declaração da Academia de Letras Sueca: “[Steinbeck] não era talhado para fazer meramente entretenimento. Ao contrário, os as­suntos por ele escolhidos são sérios e denunciativos, como as experiências amargas nas plantações de frutas e algodão da Califórnia”. Vários dos seus livros estão nas telas de cinema, como As vinhas da Ira, em produção de 1940, de John Houston; e Ratos e homens, filmado em 1939 por Lewis Milestone e em 1992 por Gary Sinise. Faleceu no dia 20 de dezembro de 1968 em Nova York. Seus romances tratam aspectos sociais  não só os problemas econômicos do trabalho rural, como também apresentam uma paixão pela terra, que entram em choque com sua visão politizada.

 

A trama de Sobre homens e ratos se passa no ambiente rural norte-americano, durante a Grande Depressão, grave crise econômica que durou mais de dez anos a partir de 1929 e assolou o sonho norte-americano de sucesso e prosperidade. Neste contexto, a peça inicia com George e Lennie indo à procura de emprego em uma nova fazenda, enquanto sonham com três alqueires de terra para criar coelhos e fazer agricultura. Retratando assim uma época na qual o sonho americano dificilmente se tornaria realidade: “caras como nós não tem família. Ganha um troco e torra tudo. Nós não, porque temos um ao outro. A gente se importa um com o outro”.

 

O elenco é composto por Ricardo Monastero  George), Ando Camargo (Lennie),  Natallia Rodrigues, Tom Nunes, Cássio Inácio Bignardi, Roberto Borenstein, Pedro Paulo Eva e Thiago Freitas .

 

A história inicia quando George e Lennie chegam à fazenda. No cenário, o dormitório dos trabalhadores, ocorrem os diálogos entre patrões e trabalhadores; e a única figura feminina: a esposa do filho do fazendeiro, responsável pelo conflito. A partir da interação entre os personagens, percebem-se as temáticas discutidas: exclusão, solidão, necessidade de uma companhia, preconceitos, frustrações, desvio dos sonhos e falta de humanidade em uma situação de miséria – econômica e emocional.

 

Os amigos George e Lennie são diferentes. Este é dotado de força física, mas com atraso intelectual e demasiada ingenuidade, enquanto aquele é baixo, franzino e esperto. O fator responsável pela amizade é a posição de marginalizados pelo sistema (homens sem bens materiais e familiares). Sobrevivem de bicos em fazendas. Para suportar a realidade, só uma verdadeira amizade para permiti-lhes continuar a sonhar “Conta mais daquele lugar”.

 

O texto dramático faz-nos refletir sobre as diversas questões relacionadas às relações na contemporaneidade: a discriminação racial com o impedimento do negro no dormitório “eu sou preto, não me querem lá”,  o uso do vocabulário “preto” – “cabelo de arrame” – “criolo”;  a solidão da esposa do patrão e dos empregados: “o mais importante é a companhia”, “um sujeito sozinho demais fica doente por sentir-se só”; o salário “baralho e puteiro tira tudo deles”; amizade “quero que fique aqui comigo”, “tivesse sozinho poderia viver sozinho. Poderia ir 500 paus para um puteiro”; “caras não viajam juntos. Ninguém se importa com ninguém”; amor e morte “por que você não dá um tiro nele?”; caráter: “bom sujeito não precisa ter juízo. Inteligentes dificilmente são bons sujeitos. Vão ficando maus”; a conduta feminina “cheiro de cravo de piranha sem vergonha”. Entre uma cena e outra, há uma pitada de humor provenientes das ações de Lennie.

 

A morte é uma temática presente desde o início da peça: rato, cachorro, a esposa do patrão       e Lennie, caracterizando um dos momentos mais dramáticos.  De acordo com o site Zine cultural: “Talvez a melhor explicação para este livro, seja um trecho de Érico Veríssimo, que por sinal traduziu a presente obra. No romance o Tempo e o Vento, um personagem filosofa:                    “O homem é uma ilha, cercada de incompreensão por todos os lados.” (http://zinecultural.blogspot.com.br/2006/06/ratos-e-homens-resumo-e-comentrios-da_08.html).

 

Segundo o diretor Kiko Marques , Ratos e homens “é um dos primeiros romances que li em minha vida intelectual adulta. Não lembrava disso. Também não tinha ideia da influência que o romance havia exercido sobre mim até receber o convite para dirigir o espetáculo. Veio-me então à cabeça tudo o que senti, pensei e fiz a partir da história dos dois amigos e seu sonho e o quanto fui tocado por ela. Hoje, diante da tarefa de transpor esse encontro para o palco, entendo esses dois personagens e sua trajetória como parte do conteúdo arquetípico que nos forma. Em \'Ratos e Homens\', é impossível não ter com Lennie e George uma afinidade onírica e um pacto de amizade eterna”.


Em carta de 23 de março a 30 de abril no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – no Rio de Janeiro.

 

 


Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também