Rede Mídia de Comunicação | Rede Sem Fronteiras

Você está em: Início > Notícias > Literatura > Literando no teatro

Literando no teatro

Literatura por Renata Barcellos em 2018-01-08 10:04:21

Ontem, apesar de ter sido um daqueles dias de intensa chuva, valeu a pena assistir à peça “O Boca do Inferno”. O texto elaborado por Adailton Medeiros, diretor e criador do projeto “Ponto Cine”,  é excelente. Para quem conhece e aprecia a biografia e obra do maior poeta do Barroco brasileiro vai gostar e para os que não se lembram do que aprenderam na escola terão oportunidade de relembrar este período socioeconômico-político e literário.Vale destacar que é retratada a história dele a partir de sua chegada à Bahia até a sua deportação para Angola (1683-94) com uma pitada de humor. Assim, assiste-se a um espetáculo no qual Matos está em decadência como fidalgo, mas  em ascensão enquanto poeta e apresenta o motivo pelo qual é conhecido “Boca do inferno”: sua língua afiada contra o governo da Bahia e suas sátiras contra o governo.

Antes de iniciar a peça, um fato diferencial: o ator e diretor Licurgo faz uma pequena colocação sobre a encenação, a atualidade dos textos de Gregório de Matos, a permissão de Caetano Veloso, de Maria Bethânia e de Maria Alcina para uso dos sonetos que musicalisaram (excelente) e oferece à plateia uma dose da cachaça Magnífica. A descontração já inicia aí RS. Segundo ele, Gregório “é artista que não cabe em seu tempo. Criticava a política, a religião e os maus hábitos da Bahia colonial. Suas sátiras, bem lidas, servem perfeitamente para o Brasil de hoje. Essa talvez seja uma das principais qualidades da verdadeira arte”.

Depois de dez minutos, ao som de Que falta nesta cidade?

 “Verdade. Que mais por sua desonra?... Honra. Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Numa cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio. Quem causa tal perdição?... Ambição...”

começaram a ser projetadas frases – pensamentos do poeta como “Loucura move o mundo”,  “ Largue a frescura, assume uma postura”.

No palco, o cenário apenas painéis com imagens de nu feminino e masculino, uma mesa e duas cadeiras. O elenco cuja atuação é excelente é constituído por Licurgo, o Gregório de Matos, “se fores poeta, satirizes” – “poesia e sátira não há melhor apunhalada”, é definido por Chico como “o maior fudedor da Bahia”. Vale ressaltar que as cenas simuladas de “fudeção” com Ana não chocam dentro do contexto proposto; pela Andréa Mattar, a Ana, a “pica-flor”, como em A uma que lhe chamou “Pica-flor”: Se Pica-flor me chamais // Pica-flor aceito ser mas resta agora saber //se no nome que me dais // meteis a flor que guardais // no passarinho melhor. // Se me dais este favor”, a prostituta que sustenta o poeta e o leva ao exílio em Angola por abandoná-la para casar-se com Maria dos povos. Na última vez que o encontra antes da deportação, ela diz-lhe: - “ tu podes ser poeta mas não conheces o coração de uma mulher... aprenda uma coisa: posso  ser puta. Sou mulher. Nunca se humilha uma mulher”; e por Gilson de Barros, o Chico, idealizador da peça, quem é responsável por momentos de humor com os outros dois atores. Com o trio pode-se conhecer um pouco não só do poeta como também refletir sobre a realidade e verificar como já no Brasil Colônia havia descontentamento com o governo. Nesse caso, refere-se ao governador Antônio de Souza de Menezes, o temível Braço de Prata.

Para finalizar, um pouco de informação sobre Gregório de Matos (1636-1695). Nasceu na capital do Brasil daquele período, Salvador, Bahia, em 20 de dezembro de 1636.  Em Coimbra, formou-se em Direito. Sua tese de doutoramento, toda ela escrita em latim, encontra-se na Biblioteca Nacional. Exerceu em Portugal os cargos de curador de órfãos e de juiz criminal e lá escreveu o poema satírico “Marinícolas”. Como não se adaptou à vida na metrópole, regressou ao Brasil aos 47 anos de idade. Na Bahia, recebeu do primeiro arcebispo, D. Gaspar Barata, os cargos de vigário-geral (só com ordens menores) e de tesoureiro-mor. Entretanto, foi deposto por não querer completar as ordens eclesiásticas. Casou-se com a viúva Maria de Povos. Foi o primeiro poeta a cantar o elemento brasileiro, o tipo local, produto do meio geográfico e social. Influenciado pelos mestres espanhóis da Época de Ouro, Góngora, Gracián, Calderón e sobretudo Quevedo. É maior expressão do Barroco literário brasileiro. Sua obra compreende: poesia lírica, sacra, satírica e erótica. Suas poesias circulavam em manuscritos. Não teve obra publicada em vida. Até hoje há dúvidas quando a autoria dos textos.  Afrânio Peixoto reuniu-os em VI volumes, publicados no Rio de Janeiro pela Academia Brasileira de Letras, entre 1923 e 1933, sob o título de \"Obras de Gregório de Matos\".

No poema sacro, Gregório se ajoelha diante de Deus, com um forte sentido de culpa, como no “Soneto a Nosso Senhor”: “Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, / Da vossa alta clemência me despido, / Porque quanto mais tenho delinquido / Vos tem a perdoar mais empenhado”.

 

No poema lírico, o poeta se define pelo erotismo, como no poema dedicado a sua esposa “Maria dos Povos”: “Discreta e formosíssima Maria, / Enquanto estamos vendo a qualquer hora, / Em tuas faces a rosada Aurora, / Em teus olhos e boca, o Sol e o dia”.

 

Na poesia satírica, tom de feroz maldade à vida colonial, em tom de revolta e ressentimento: “

 

Triste Bahia

Triste Bahia! 
ó quão dessemelhante 

Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi abundante.

A ti tricou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e, tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

 

No poema lírico

À mesma d. Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
De verde pé, da rama fluorescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

 

No poema erótico

Também ficou conhecido como profano por denunciar os escândalos sexuais envolvendo os conventos da Bahia.

Necessidades Forçosas da Natureza Humana

Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma freira, que me desemtupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.

 

Durante um tempo em Luanda, período de exílio, exerceu a função de advogado. Em 1695, recebeu permissão para voltar ao Brasil, mas não para a Bahia. Foi encaminhado para Pernambuco, na cidade do Recife, onde faleceu no dia 26 de novembro de 1695.

 É o patrono da cadeira n. 16, na Academia de Letras (ABL) por escolha do fundador Araripe Júnior.

 

Vale a pena conferir!!!!

 


Local: Teatro Municipal Café Pequeno (Av. Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon)
Ingresso: R$ 40,00
Temporada : 05 a 28 de janeiro de 2018.
Sexta a domingo – 20h
Classificação: 16 anos
Duração: 60m

 

Deixe seu comentário, ele é muito importante para nós

* Seus dados não serão exibidos a terceiros.

Publicidade

Veja também