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Nuon

Literatura por Renata Barcellos em 2018-07-02 22:33:52

Este fim de semana, Tania Prates fez-me mais uma bela indicação: assistir à peça Nuon. Hoje, vindo de Carapebus, fui direto para sessão extra das 17 horas. Sentei-me e, quando as cortinas do Teatro Ipanema abriram, o espetáculo começou. A Trupe de Teatro Ave Lola, de Curitiba aborda uma temática cruel (a dos refugiados de guerra, tendo como pano de fundo o assassinato em massa promovido pelo regime do Khmer Vermelho no Camboja, durante a década de 70) de forma poética. Aliás, a poesia perpassa a narrativa. As metáforas criadas como “sopro de esperança” e “a dor corta minha alma”, as hipérboles: “medo do tamanho do mundo, colossal” e “dor colossal, do tamanho da sobrevivência” e a cena final (do arroz caindo).

A narrativa inicia-se com os mortos e o esclarecimento de que será a celebração deles. A partir deste momento, há esquetes apresentando a história de como morreram e uma delas atravessa toda a narrativa: a de uma sobrevivente. Vale destacar que esta personagem é inspirada em Phaly Nuon, cambojana, dedicada a salvar outras mulheres dos traumas físicos e emocionais gerados pela tortura, fome e outras mazelas dos campos de trabalhos forçados.. De acordo com a diretora Ana Rosa Tezza, o ser humano “é capaz de fazer quando perde a liberdade, a justiça e o bom senso.”
O excelente texto e direção de Ana Rosa Tezza, além do cenário e a vestimenta dos atores nos remete áquele momento de terror, mas de modo sutil. Segundo ela, a busca pelo acabamento é forma respeitosa de falar artisticamente de um povo que tem cuidado e riqueza na elaboração estética. A arte no Khmer antigo era super detalhada e delicada, então quisemos trazer à cena o que eles tinham de mais bonito, para falar do mais feio.”

Como o espetáculo retrata a violência do regime comunista Khmer Vermelho, em Camboja, de 1975 a 1979, com cinco excelentes atores, Ana Rosa Tezza retrata 11 personagens narrando o terror daquela situação. Dentre eles, o príncipe Sihanouk, tirado do poder durante o golpe; o diretor de um campo de refugiados onde as mortes são constantes; duas irmãs enviadas pelos pais ao exterior para se protegerem das atrocidades, adoram ler as poesias do pai; Além da ativista Phalyn Nuon, que dá nome à peça, retratada em três épocas, até seu estabelecimento como protetora de refugiados traumatizados.

Conforme Ana Rosa Tezza , o teatro tem “a capacidade de trazer essa reflexão de forma única, com poesia e delicadeza, mas sem minimizar a relevância histórica dos fatos”. Realmente, ela consegue fazer isso com a forma como propõe a abordagem do fato histórico em uma única noite, durante uma celebração na qual no mundo budista os ancestrais são homenageados. Enfim, a peça faz também uma reflexão sobre guerra, refugiados, fronteiras, imigração e a perda dos valores humanos. Em destaque, ao longo do texto, Nuon diz: “todos os bons morreram. Todos os que não aprenderam a mentir”,  “o terror tira a vida e engole a alma” e “como é frágil a alma de justiça, fugidia a liberdade”.

Para finalizar esta breve apreciação, um fragmento das últimas palavras do príncipe Sihanouk “A história percorre caminhos tortuosos... desejo ao país coragem... que haja esperança, verdade, amor, poesia perpétua e floresça a paz”. Concordo plenamente.

Um pouco de história sobre o Khmer Vermelho

O regime aconteceu entre 1975 e 1979. Suas práticas são reconhecidas internacionalmente como assassinato em massa. Cerca de 2 milhões de pessoas – 25% da população do Camboja na época – foram executadas. Os principais líderes do regime foram Pol Pot, Nuon Chea, Ieng Sary, Son Sen e Khieu Samphan. Além de mortes, o Khmer Vermelho foi responsável por horrores praticados em campos de trabalhos forçados, como tortura, separação de famílias e muita fome.

 

Ficha

Gênero: Drama
Direção: Ana Rosa Tezza
Elenco: Evandro Santiago, Helena Tezza, Janine de Campos, Marcelo Rodrigues e Regina Bastos
Local: Teatro Ipanema - R. Prudente de Morais, 824 – Ipanema - Rio de Janeiro 

TERÇA-FEIRA, 3 DE JULHO
Horários: 17 horas e 20 horas
Duração: 60 min
Classificação 16 anos

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