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Seminário de Educação Literária: um olhar por Barcellos

Literatura por Renata Barcellos em 2018-08-19 01:08:53

Neste sábado, dia 18 de agosto, ocorreu o Seminário de Educação Literária, na Cidade das Artes, sob a excelente organização de Cintia Barreto. Fui lá prestigiar e aprender com as pessoas que estão produzindo literatura na atualidade. Quando disse que iria lá. Algumas pessoas me questionaram: “você não vai para apresentar suas práticas?”. Respondi-lhes: “NÃO. O professor e/ou pesquisador também capacita-se. Estou indo para assistir e implementar minhas práticas pedagógicas”. Já havia me inscrito há semanas e já tinha dito a Cintia Barreto que escreveria para minha coluna Literando no teatro. Cheguei ao belo local cedo. Fui apreciando tudo. Ao entrar no local mágico, biblioteca, fiz o credenciamento e fiquei observando as pessoas e as ouvindo. Várias de outros municípios inclusive: Caxias, Nova Iguaçu... E lendo o cronograma, estava inquieta para ouvir cada um dos palestrantes.

Começou com Verônica Marcílio contado história com uma caixa onde tirava os elementos da narrativa. Ao fim, prestou uma homenagem à Marielle Franco. Todos do auditório aplaudiram. Em seguida, o ator João Francisco fez uma bela declamação do poema José de Drummond:

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

 Na sequência, Cintia Barreto fez a abertura do evento declamando o poema Bilhete de Mario Quintana:

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mario Quintana , Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 2005. p. 474.

 

Em seguida, deu início a primeira mesa redonda: Educação literária. O professor Armando Gens abordou três aspectos: escrita e voz, estatística e poesia e tecnologia. Citou Octavio Paz e Borges para ressaltar a importância da leitura em voz alta. Do som e do sentido. Enquanto professora (pesquisadora – minha sala de aula é um experimento), sabe-se que, ao longo da história da Educação, o trabalho com a oralidade sendo substituído pela escrita. Nas práticas pedagógicas, urge o professor propor atividades nas quais o aluno possa expressar-se oralmente e perceber a importância do som. Neste momento, fez-me lembrar da minha prática esta semana com a música Pulso de Titãs. Distribui a letra para a turma do segundo ano do EM. Eles estranharam-na. Em seguida, pedi para assistirem no youtube o clip a fim de perceberem a relevância da musicalidade e seus efeitos de sentido.

O segundo aspecto abordado pelo professor foi gosto e estatística. O professor trouxe alguns questionamentos: “o que é poesia?”, “quantos são e quem lê poesia?”... E citou Gullar “não pode nenhum poeta nem ninguém estabelecer rumos para a poesia”.  Eis uma bela reflexão a ser feita.

O terceiro fator apresentado foi o que tem instigado-me: poesia e tecnologia.  Texto (corpo aberto) adquire outras formatações nas redes. Trata-se de um momento de ruptura com a linearidade do pensamento.  A relação escritor e leitor estabelecem novas maneiras de INTERAÇÃO. Nas diversas plataformas, o leitor interage com o autor, participa da construção... Finaliza com a seguinte citação para reflexão: "o que será de uma borboleta rebocar o batelo".

Georgina Martins propôs o grande questionamento do seminário: como formar leitores? Esta é a pergunta que os docentes cada vez mais se fazem. A professora não só apresentou um breve tour pela história da leitura com informações muito enriquecedoras como também  declarou que o bom professor de Literatura só será aquele que possui o hábito da leitura: “só pode ensinar o que se sabe fazer”. Isso é um fato. Infelizmente, quantos professores ministram aulas da disciplina mas não são leitores vorazes. Como incentivar o aluno se nem mesmo o professor lê?

A professora Rosa Gens provoca-nos com “o que é literatura?”. E, ao ouvir sua explanação, ficou latente sua preocupação não com os que leem e com o que consomem mas com a camada que nada lê. Nesta, é preciso atuar urgentemente para formar novos leitores.

A segunda mesa redonda foi Leitura e imagem. Esta temática sempre é abordada por mim nas aulas. Proponho sempre que os alunos percebam a importância da relação linguagem verbal e não-verbal (complementação – ilustração). Thais Linhares contou-nos de uma das suas personagens: a princesa cadeirante. Ficou-nos a reflexão e a sugestão de produção porque quase não há na literatura infanto-juvenil textos com personagens com características diversas.  

Chris Alhadeff trouxe-nos uma questão polêmica: o papel do ilustrador. Mostrou-nos o quanto é escritor como o “autor”. Em uma obra literária, os dois são escritores: um da linguagem verbal e o outro da não-verbal. É emergencial que a sociedade conscientize-se disso!!!

Camilo Martins propôs-nos ler obras de Arte e contou-nos a estória de Caravaglio. Foi muito enriquecedor. Outro tipo de leitura pouco explorado pelo professor porque, muitas vezes, não tem conhecimento da área.

A terceira mesa redonda foi Literatura, Mídia e Educação. A temática mais instigante para mim por trabalhar em uma instituição tecnológica e com o setor de Mídias.

Simone Ricco diz-nos que “estimular a escrita também é formar leitor”. Com certeza, para escrever sobre qualquer temática, é preciso pesquisar o assunto. Os alunos do terceiro ano em fase de preparação do Enem sempre me ouvem dizer: “é preciso escolher o tema e lê-lo só assim garantirá 200 pontos na competência 2 e 3. Infelizmente, esta sua declaração é um fato: “a sala de aula sufoca muitas narrativas por causa dos conteúdos a serem trabalhados”. O professor precisa rever sua prática. É possível dar voz ao aluno e trabalhar outros gêneros concomitante ao que é orientado. Afinal, como ela disse: “literatura é a palavra em movimento”. Que haja cada vez mais movimentos em sala de aula!!!

Clarice Campos apresentou-nos o seu belo projeto na sala de leitura. Descreveu as etapas até chegar ao video Meu colar de contas. Parabéns pelo trabalho!!!

Sidney Oliveira contou-nos de suas obras Severino faz chover e Chapeuzinho amarelo. Fez-nos pensar sobre a etmologia da palavra , proveniente do latim cujo significado é tirar do lugar. Declarou-nos de como o nosso papel enquanto professor é esse. Nas aulas, devemos provocar o aluno. Levá-lo à reflexão. O que mais me tocou em sua fala foi quando relaou o caso de uma aluna que se suicidou. Lembrei-me da minha experiência na semana desta última férias. No intervalo, conversamos sobre como aquele fato modificou-nos enquanto profissionais.

Simone Monteiro iniciou sua exposição com um fragmento de um poema de Eugenio Andrade, poeta português: “ é urgente um amor....”. Em seguida, apresentou-nos as seguintes questões: “O que acesso?”, “como?”, “por quê?”, “o que fazemos nas diferentes plataformas e mídias?”, “onde na TV a leitura aparece?”... Mostrou-nos o quanto é emergencial o público leitor exigir espaços de reflexão. E sugeriu uma pesquisa “urgente” para dados estatísticos serem atualizados.   

Na parte da tarde, iniciou-se com A construção do texto literário  por  Ieda de Oliveira. Apresentou-nos a diferença entre a notícia e o texto literário. Citou a personagem Iracema. Colocou muito bem que o “mérito de quem trabalha com criança é muito maior”. Brevemente, relatou-nos o espaço ocupado pelos contos de fada e fábulas ao longo da história. Foi muito enriquecedor. E em destaque a questão da classificação do público alvo. A obra será destinada a um determinado se o leitor encontrar elementos e a apreciar.

Em seguida, foi a mesi redonda Literatura e formação do Brasil. Jorge Marques citou-nos o livro Um território contestado: literatura brasileira contemporânea e as novas vozes sociais de Regina Dalcastagnè. Com certeza, próxima leitura. Mencionou a lei das Literaturas africanas. E, perguntou-nos: “qual o resultado nos bancos escolares?”. Sabe-se que poucas são aquelas que citam os autores de outras expressões. Tive oportunidade de fazer a formação continuada no Pedro II onde Jorge é coordenador. No CEJLL/ NAVE, desenvolvo um projeto no terceiro bimestre de Literaturas africanas com Alessandra Viegas (ex-agente de leitura da instituição).

Eliana Alves trouxe-nos o questionamento: “como foi sua educação literária?”. E contou-nos a sua história. Fiquei ali ouvindo e pensando na minha memória afetiva de ter a imagem de minha mãe sempre lendo e meu pai e minha avó recriminando-a. Vale ressaltar que adorei a resposta da Eliana a seguinte pergunta: “qual é seu principal compromisso?” E ela respondeu: “com todos que tenham inquietação. Querem se ver na literatura”.

Estava ansiosa para ouvir os palestrantes da mesa redonda Literatura para jovens. Alex Gomes discutiu sobre a definição de literatura infantil e juvenil, suas fronteiras tênues... Pontuou muito bem a questão do que chamou “censura mercadológica” no que diz respeito a não aceitação de certos temas para este público-alvo. Contou-nos experiências demonstrando assim o seu descontentamento com essa postura adotada. As editoras precisam atualizar-se!

Julio Emilio, muito bem humorado, ri muito com seu relato. Contou-nos de como foi sua criação. E, no final, o grande problema na criação dos filhos. Antes, quando o responsável era solicitado a comparecer na escola, ele perguntava: “O que você fez?”, agora, “o que ela quer comigo?”.

Otavio Jr. Apresentou-nos a sua história com o projeto Ler na favela. É autor do livro O livreiro do alemão. Relatou-nos que ficou conhecido com o nome deste livro. A partir da experiência como pai de um menino de 10 anos, refletiu sobre a literatura.  E como urge o professor se reinventar para poder atingir o jovem.

Na mesa redonda posterior, intitulada Mediação de leitura, foi apresentado o belo projeto Poesia viral de Joao Pedro e Eliza Moreno. Fizeram performace de poemas . Ele a considera como “uma revivência de experiências”. Parabéns!!!

Nivea Oura encerrou de forma brilhante o seminário. Ela fez a seguinte reflexão: ”o conteúdo o aluno tem disponível em diversos meios (livros, sites..), a grande questão é o além ... é a forma de abordagem. E isso só com a figura do especialista, o professor”.

E, para fechar as atividades, tivemos Contação de histórias. A dupla Silvia Castro e Paulo Bi nos blindou com a música Estrela Dalva.

O que posso mais dizer? Adorei!!! Que venha o próximo no qual gostaria de relatar minha experiência também!! Foi tão agradável que não sentimos a hora passar. Parabéns a Cintia Barreto por nos proporcionar momentos de formação continuada, de interação com que está fazendo a diferença, às responsáveis da Cidade das Artes pela acolhida do projeto e pela atenção a todos, aos palestrantes e a todos os palestrantes pela abordagem das temáticas, aos colegas de profissão, pelo desejo de capacitação, por almejarem fazer a diferença na sua sala de aula. Urge revolucionarmos as nossas práticas pedagógicas literárias!!!

 


 

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Simone ricco

Cobertura de altíssima qualidade. Parabéns!

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